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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Corpo místico e Colectivismo

Não deixa de ser paradoxal o engrandecimento do indivíduo no campo religioso tendo origem num tempo em que o colectivismo arrasa completamente o indivíduo a todos os níveis. A ideia subjacente é que a religião democratizada pertence apenas ao âmbito da nossa vida privada e que se trata apenas de um campo pessoal e não colectivo. Alguma razão existe nesse princípio. Falando na religião que mais fez pelo ser humano enquanto indivíduo, o cristianismo, é óbvia a ideia de que o relacionamento com o divino pertence à esfera pessoal e só admite a intermediação do mediador nomeado por quem teve a iniciativa do Pacto e que se deu voluntariamente para tal.

sábado, 18 de novembro de 2017

O género


Compreender as raízes e objectivos da denominada ideologia do género passa necessariamente por entender o que se conhece por marxismo cultural, ou a teoria crítica da sociedade. O ensino neomarxista, ou marxismo ocidental, a teoria crítica da sociedade, é considerado o conjunto das correntes nascidas nos anos vinte do século XX, em torno das teses de Gyorgy Luckács (1885-1972), Karl Korsch (1896-1961), Ernst Bloch (1885-1977), e Antonio Gramsci (1891-1937). O essencial do modelo está na tese de Antonio Gramsci (comunista italiano) sobre a sociedade civil, considerada como o domínio das superstruturas culturais e ideológicas. O mal não reside no indivíduo, bom por natureza, mas tão somente no sistema instalado, a saber a civilização ocidental burguesa e cristã. Contrariamente ao marxismo tradicional que visa a tomada do poder directamente através da luta armada pelo proletariado, os proponentes do neomarxismo acreditam que a cultura ocidental não pode ser atacada de frente, como o tentou sem êxito o comunismo tradicional, mas precisa de ser implodida, anónima e gradualmente Não segundo a via estalinista, mas disfarçadamente. Gramsci propõe o “Admirável Mundo Novo” de Huxley, com a mudança do indivíduo a partir do seu interior, e não o “1984” de Orwell onde a monitorização e vigilância do Big Brother não impedem a consciência de se proteger. Embora haja diferenças entre o conceito de Marx para o qual a arena decisiva da luta de classes era o controlo dos meios de produção (sub-estrutura) e não a batalha de ideias e que os ataques à cultura por parte dos neomarxistas denotasse um abandono do marxismo original, vamos chamar a esta escola de Marxismo Cultural dado que este nome é o comummente usado e trás consigo a ideia da transformação da sociedade através de uma revolução pelas colunas da cultura.

 Para implementar a sua ideologia Gramsci descobriu os três pilares culturais ocidentais que teriam de desabar: a ética judaico-cristã (fé no Deus de Israel), a filosofia grega (a razão filosófica, a razão aristotélica é considerada uma prática burguesa) e o direito romano (pensamento jurídico). A actual batalha cultural expressa-se na destruição destes três fundamentos (curiosamente o apóstolo Paulo expressava-se dentro destes paradigmas, pela sua fé, seu raciocínio lógico, sua defesa enquanto cidadão romano). Consegue-se descortinar as actuais tentativas modernas de abolição destes três pilares se considerarmos a luta contra o Cristianismo e seus princípios morais, a oscilação do pensamento lógico para um niilista, existencialista, a polilogia típica do pensamento marxista e a subversão do direito que introduziu a codificação, a questão dos bens, das sucessões, entre muitas outras indispensáveis ao actual sistema capitalista. 

 Com a gradual queda do conceito de classe operária oprimida, ou proletariado, e a ascensão da classe média devido ao avanço do sistema capitalista, o marxismo cultural cuja agenda é o  desencadear uma revolução precisamente através da classe proletária oprimida no sentido de transformar o mundo pela eliminação de classes sociais, das desigualdades, da classe dirigente opressora, teve de encontrar novas “classes” de oprimidos, uma nova bandeira, a fim de fazer avançar a sua luta ideológica. Inventou-se assim o termo “excluídos”. Todo o ser humano se sente excluído de algo e isso sempre provoca insatisfação. Este é o combustível ideal para a revolta ideológica do marxismo. E que maior revolta pode haver do que a sociedade conservadora moldada pela moral judaico-cristã discriminar as escolhas sexuais individuais? Sob pretexto de justiça e equidade, virtudes essencialmente cristãs, os inimigos do cristianismo apoiam-se precisamente nelas para destruir o que as concebeu.  

 A ordem da Criação mesmo antes da queda no Éden já preconizava o trabalho, a família, o governo, a diferença de sexo, a autoridade. “Macho e fêmea (Deus) os criou”, relatam as Escrituras. Existe no desígnio divino uma clara distinção de género e embora essa distinção diante de Deus se apague (Gálatas 3.28), não é menos verdade que ela existe. Os principais mandamentos da ideologia do género, na sua tentativa de implementar uma nova crença progressista e anti-cristã, consistem na premissa que não há diferenças entre homens e mulheres, no libertar a mulher da opressão de uma sociedade patriarcal, emancipá-la da “discriminação”, que o papel tradicional da mulher no lar seria apenas uma construção social burguesa; o sexo biológico é modificável, é um dado transitório e maleável que pode ser transformado de acordo com a opção de cada um; a família nuclear e tradicional é um estereótipo, a família natural, segundo os ideólogos do género, será apenas uma norma social baseada na antiga opressão do homem sobre a mulher agora superado pela abstracção do género, o plural “famílias” passa a ser obrigatório e na lista entram, obviamente, todos os relacionamentos “poli-afectivos” redimidos da sexualidade tradicional; a paternidade é “dessexualizada”, se a família natural não passa de uma construção social, a consequência será a paternidade dessexuada. Os filhos deixam de ser fruto de uma sexualidade entre macho e fêmea para serem artificialmente concebidos In Vitro, em barrigas de aluguer. Falar da educação dos filhos por um casal homem-mulher é considerado ofensivo, porque tradicional e burguês. Os casais homossexuais são doravante erigidos em modelo de educação, não obstante as sérias objecções daí decorrentes; a classe falante (Pierre Bourdieux), os meios de comunicação social, são conquistados por uma minoria que eclipsa totalmente uma maioria mais conservadora e tradicional que não tem quem a represente e, consequentemente, é provocada a impressão de que a maioria conservadora é na verdade uma minoria. Existe uma óbvia tentativa de eliminar o cristianismo e substituí-lo por uma religião baseada no racionalismo e determinismo histórico, tendo o Estado omnipresente e omnipotente como seu deus e uma elite auto-eleita como seus profetas. O paraíso seria aqui e agora, na Terra, proposto por novos princípios humanistas, racionalistas e condicionados pela marcha inexorável do determinismo histórico.  

 O Marxismo Cultural, neste caso, trata-se de mais uma religião. Uma autêntica devoção com os seus dogmas, os seus profetas, o seu deus (o Estado), o seu paraíso (a Terra sob o marxismo globalizado). Ele é sempre um programa global, universal e necessita também de uma religião global e universal, ecuménica. As profecias serão cumpridas e o Cristianismo terá de ser globalmente ostracizado, cristianismo que está na origem da liberdade individual, do trabalho meritório, do direito à propriedade privada, do direito à vida, da ideia do pecado, da Lei Natural, da família tradicional base da sociedade. Gramsci entendeu claramente que  enquanto o cristianismo não fosse destruído e permanecesse uma tradição vincada no Ocidente não haveria nenhuma revolução proletária. A História o comprovou.

sábado, 30 de setembro de 2017

O cristão nas urnas

Dia 1 de Novembro o povo português é convidado a ir às urnas. Convidado porque não é obrigado. Embora as eleições nete domingo tenham a ver com o poder local, as autarquias, não deixa de ser importante o seu resultado, barómetro para interpretar o oscilar das forças políticas presentes na luta pelo poder nacional.

Os cristãos são convidados a ir às urnas.

Dizendo de outra maneira, a Igreja de Cristo em Portugal é chamada a participar na vida política nacional. Não é legítimo o cristão se abster deste seu dever cívico sob pretexto de espiritualidade, ou de desprezo pelas instituições do poder nacional até porque ele é chamado a orar pelas autoridades do governo e respeitá-las. O crente pode e deve, através do voto secreto, acção proporcionada pelo sistema "menos mau de todos" chamado de democracia, ter uma palavra a dizer no desenrolar da vida política do seu país o que irá, evidentemente, ter repercussões na vida das igrejas locais, nacionais, questões sociais fracturantes, perseveração dos bons usos e costumes, servir de força de bloqueio a ideologias evolucionistas e ateístas cada vez mais presente no nosso quotidiano.

A questão da legitimidade de votar nem se devia colocar. O importante é legitimar em quem se deve votar. Apesar de não se dever utilizar o púlpito para propaganda política, social ou outras, é dever de todo o pregador, pastor ou ancião o sensibilizar a igreja local ao voto pela defesa do bem-estar da igreja, da preservação de uma moral de raízes judaico-cristãs ainda em vigor, embora presente de maneira cada vez mais ténue, da paz do povo de Deus na sociedade. Estes princípios encontram-se seriamente ameaçados pelo pensamento secular ateu, mesmo que rotulado e disfarçado de slogans como "caridade pelos pobres", de "defesa das minorias", ou de "justiça social" comummente utilizados para seduzir o crente mais ingénuo que, das duas uma, ou desconhece essa ideologia política, ou desconhece a teologia. Elas excluem-se mutuamente. Se a igualdade social fosse um mandamento bíblico Salomão teria cortado o bebé em dois. Justiça social é a igualdade de oportunidades e não a igualdade de resultados.

Ontologicamente a Igreja "não é" do mundo, mas temporalmente ela "está" no mundo. Embora a revelação na Palavra de Deus seja a revelação especial aos crentes, a revelação geral (lei moral) é para toda a gente. Existe uma revelação Natural comum a todos os seres humanos. Ela não começou com os cristãos, mas é encontrada em escritos hindus, chineses, gregos, anteriores à época de Cristo. Esta lei Natural, embora obscurecida pelo pecado, não está completamente esquecida e reflecte a imagem de Deus na humanidade e é precisamente esta lei Natural que os movimentos progressistas, ateus e evolucionistas que colocam o Estado secular acima da Igreja dominando-a, Estado este que pretende substituir-se a Deus e cujo secularismo acabará por impor a irreligião, pretendem aniquilar com decretos claramente inspirados nos manifestos Humanistas abrindo assim lugar a uma sociedade dominada pelo Estado através de uma elite, sem Deus, sem outra religião que a do Estado, sem outra lei moral que a humana.

É pela oração e pelo voto, não pela força das armas ou violência, que o crente que não é deste mundo pode aspirar a ter paz neste mundo que não é seu.



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Como Jesus Vem a Newtown?


"Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se. . . porém um, que como nós, em tudo foi tentado." (Hebreus 4:15)

Assassinato em massa (ou massacre) é a razão pela qual Jesus veio ao mundo da maneira que ele veio. Qual o tipo de Salvador que nós precisamos quando nossos corações são triturados por perda brutal?

Nós precisamos de um Salvador sofredor. Nós precisamos de um Salvador que tenha provado o cálice do horror que nós estamos sendo forçados a beber.

E é assim que ele veio. Ele sabia o que este mundo precisava. Não um comediante. Não um herói desportivo. Não uma estrela de cinema. Não um génio político. Não um médico. Nem mesmo um pastor. O mundo precisava do que nenhum mero homem poderia ser.

O mundo precisava de um sofredor Soberano. Mero sofrimento não resolveria. Mera soberania não resolveria. Um não é forte o suficiente para salvar, a outra não é fraca o suficiente para simpatizar.

Então, ele veio como quem ele era: o Rei compassivo. O Conquistador moído. O Leão como um cordeiro. O sofredor Soberano.

Agora ele chega em Newtown, Connecticut.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Ainda sobre o dia da mãe…

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Mais uma vez devo e vou contra a corrente. Nunca compreendi claramente o porquê dos evangélicos comemorarem em suas congregações um dia dedicado às mães. Por mais que busque uma razão nas Escrituras, a mesma teima em não aparecer. Sempre pensei que os cultos nas igrejas evangélicas deveriam primar pela simplicidade onde Deus e a sua obra deveriam ser o centro das atenções, onde a pregação da Palavra deveria ser fulcral, onde o louvor a Deus deveria ser exercido de uma maneira solene e respeitosa, onde a oração deveria tomar uma posição mais central, enfim, tudo aquilo que Jesus Cristo mais fazia enquanto homem na Terra. Tudo o resto se desnecessário, se não explicitamente ordenado, deveria ser pura e simplesmente erradicado de um culto.

sábado, 12 de maio de 2012

Catolicismo romano sem vergonha

Não que não seja nng1934181ada a que não estejamos habituados neste pobre país tão rico em cultura, mas tão pobre em princípios. Segundo noticiado no Jornal de Notícias do Porto, cristo foi à Católica fazer uma TAC (leia a notícia aqui). A estátua que representa a imagem do nosso Senhor de Matosinhos, antiga de cerca de 700 a 900 anos, é o objecto de um trabalho de Alexandre Maniés que procede à consolidação e ao restauro da escultura no âmbito de um mestrado na Universidade Católica. “Financiado pela autarquia, o trabalho permitiu perceber o avanço da degradação, causado insecto xilófago (bicho da madeira) e por restauros mal pensados.”

sábado, 28 de abril de 2012

O que para aí vem...


A teoria de uma conspiração universal destinada a estabelecer uma nova ordem mundial não é propriamente uma novidade. Essa tendência, de uma maneira ou de outra, já teve eco em quase todas as eras. Desde os primórdios da humanidade que o Homem sonha a conquista, a dominação, o estabelecer a sua própria ordem e regras. Os impérios, as colonizações são meras sombras de uma vontade inata de subjugar o Homem pelo Homem, de fazer prevalecer, a maior parte das vezes pela força, os usos e costumes do mais forte retirando daí dividendos materiais, sociais e morais.

O que distingue a sede de conquista do antes e do agora é a sua universalidade e meios disponíveis. Universalidade porque o planeta está encurtado devido à proximidade facultada sobretudo e principalmente pelos meios de comunicação. Quando a figura do Cristiano Ronaldo se torna mais familiar que a do nosso vizinho do lado então é porque alguma coisa de inédito se está a passar. São estes mesmos meios disponibilizados por uma “sociedade onde o poder é inseparável da riqueza e a riqueza é inseparável da velocidade. Não poder democrático, mas poder domocrático – do grego dromos, corrida – e toda a sociedade é uma sociedade de corrida” (Paul Virilio) que está fazendo desta sociedade uma sociedade cosmopolita global. Mesmo a democracia deve a sua expansão à influência do progresso das comunicações a nível global.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Dinamarca - os homossexuais poderão unir-se em matrimónio na igreja do estado

A partir do próximo verão, os casais homossexuais poderão expressar os seus votos de matrimónio nas igrejas estatais dinamarquesas, explica na primeira página o diário dinamarquês Politiken. Trata-se de uma decisão do novo governo dinamarquês, social-democrata, recém eleito em Setembro último. Actualmente, os pastores da igreja do povo dinamarquês - luterana - que é a igreja oficial do estado, podem simplesmente "abençoar" os casais homossexuais. O Politiken precisa, todavia, que os pastores poderão recusar casar um casal homossexual.


Fonte: http://www.courrierinternational.com/breve/2011/11/23/les-homosexuels-pourront-s-unir-devant-dieu-aussi

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Neo-Calvinismo

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Deparei-me há pouco tempo com a existência cada vez mais acentuada e aceite deste novo (antigo) movimento denominado neo-calvinismo ou, no seu termo original anglo-saxónico, new calvinism. As igrejas adeptas desta forma doutrinal estão cheias e os seus proponentes são considerados por revistas seculares da especialidade como dos mais influentes fazedores de opinião nos círculos eclesiásticos norte-americanos. Os jovens aderem em massa aos encontros, centenas de milhares de downloads de mensagens do género são efectuados, uma imensa rede de recursos eclesiásticos está disponível online, várias igrejas, aparentemente comprometidas com a transmissão de valores cristãos na sociedade, desponta numa sociedade visivelmente pós-cristã e relativista nos seus valores morais e colectivos.
O que é o neo-calvinismo? O termo neo significa novo e o termo Calvinismo é o nome dado ao ramo do Protestantismo que seguiu os ensinos do reformador Calvino. Assim, o termo neo-calvinismo sugere uma forma de Calvinismo diferente do seu significado original.

domingo, 30 de outubro de 2011

O individualismo ameaça a igreja católica-romana

index2http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=87944

Segundo esta notícia, a igreja católica-romana, esmagadoramente maioritária em Portugal, vê-se ameaçada pelo individualismo, imediatismo e tolerantismo. “O “individualismo”, “imediatismo” e “tolerantismo” constituem “grandes desafios” ao catolicismo em Portugal, afirmou esta sexta-feira o bispo do Porto numa conferência realizada na Fundação Inês de Castro, em Coimbra”. D. Manuel Clemente, o historiador e autor do artigo, afirma ainda que “a revisão constante de certezas adquiridas, a desconfiança pós-moderna em relação às pré e meta narrativas” e a “comercialização geral e publicitária dos gostos e comportamentos” contribuem para que o catolicismo sofra “uma erosão permanente”. Na sua opinião relativamente à tolerância, virtude cujo sentido primário se desvaneceu e cuja importância histórica tem sido corrompida ao ponto de não mais se poder chamar de tolerância, mas tolerantismo, ou abandono do campo, o autor dá-se conta de que o Cristianismo está profundamente refém do conceito pós-moderno do mundo cujo desfecho tem sido a erosão permanente não só da instituição religiosa que dá pelo nome de igreja católica-romana, mas do Cristianismo em geral.

Primeiramente cabe salientar que a igreja católica-romana sempre teve uma presença bastante vincada na sociedade lusa. Ela revela-se sempre através da História com uma hierarquia eclesiástica bastante confundida com a sociedade imperial, ou real, onde a diminuta classe dirigente gozava na igreja de um estatuto especial e favorecido face aos cidadãos das classes mais baixas. Esta promiscuidade é bem patente num passado recente através do triunvirato Salazar, Presidente da República e Cardeal Cerejeira. Falemos pois da intolerância respeitante aos livres-pensadores do séc. XVI que blindou a península Ibérica das transformações operadas pela Reforma em outros países da Europa: a liberdade moral, a elevação da classe média e a Indústria. Falemos desse absolutismo intolerante cristalizado no concilio de Trento que veio, tal como a instituição, a transformar e confundir o sentimento cristão na instituição católica. Falemos desse triunfo desta opinião absolutista que empederniu a igreja instituída na esperança de a solidificar e que constituiu “uma verdadeira calamidade para as nações católicas” (Antero de Quental). Falemos dessa tradição que, num símbolo terrivelmente expressivo, apresenta-nos Camões, o cantor das glórias passadas que nos empobreceram devido à centralização de recursos e riquezas, mendigando para sustentar a velhice triste e desalentada, a imagem da nação que esquece que Portugal, o Portugal das conquistas “cristãs”, é esse guerreiro altivo, nobre e fantástico, que voluntariamente arruína as suas propriedades para maior glória do seu idealismo poético-cristão.

O catolicismo absolutista gerava, inevitavelmente, o espírito aristocrático, com o seu cortejo de privilégios, de injustiças, com o predomínio das tendências guerreiras (leia-se prosélitas) sobre as industriais. A influência do espírito de intolerância absolutista e dogmático na sua doutrina falseada, nomeadamente na soteriológica, cria uma indiferença pela filosofia, pela ciência, pelos movimentos moral e social e mergulha a sociedade num sono anedótico, num torpor ridículo face às transformações num continente marcado pela Reforma e suas consequências.

A nossa fatalidade é a nossa História.

Todavia, e paradoxalmente, é este conservadorismo religioso que promove a hierarquia, a disciplina, a ordem que a autoridade se encarrega de assegurar, os dogmas que, de uma maneira firme, regulam a vida, a menina-dos-olhos dos homens dos séculos XVI e XVII cuja crença se baseia no direito divino, se bem que conforme os ditames da instituição religiosa reinante, que guarda o pensamento social do direito natural ditado pelos homens do Renascimento cujo o seu primeiro amor é o ódio pelo constrangimento, a autoridade, os dogmas e cuja linha de pensamento desembocará na adoração pelo Natural, pela tolerância universal, pelo Homem como ponto de aferição nas artes, ciência e letras, pela guerra à tradição e pelo sonho de uma era de paz, prosperidade e iluminação fundadas sobre a razão e a ciência. Neste momento a igreja católica-romana é apanhada na sua própria armadilha. Intolerante, produz intolerância; arrogante, produz arrogância. O homem pós-moderno ciente da sua liberdade, ainda que ilusória, parece ter consciência e permissão de tudo negar, de tudo intolerar, de tudo questionar. D. Manuel Clemente discerne um risco social, mas este risco não faria sentido numa sociedade tradicional, pois risco não é sinónimo de acaso ou perigo. O risco tem a ver com perigos calculados em função das probabilidades futuras. Apenas tem uso numa sociedade voltada para o futuro e implica a existência de uma sociedade ansiosa por se desligar do passado que é, na realidade, a primeira característica de uma sociedade industrial. Preso durante séculos à hegemonia católica-romana, Portugal tem-se libertado, por assim dizer, dos dogmas poeirentos e autoritárias do clero que tudo supervisiona, tudo controla. A emenda tornou-se pior que o soneto. Repentinamente, desligado do seu passado pela revolução dos cravos produzida por uma ideologia liberal de esquerda, ansiosamente à procura de uma Europa industrial e progressista, Portugal encontra-se na arena europeia sem, contudo, estar preparado para tal. Como um indivíduo há muito privado de alimento, este país sofregamente comeu de tudo o que lhe era oferecido, sem limites nem constrangimentos correndo o risco de morrer pela sua própria avidez. A matriz religiosa cristã cujos princípios ainda nos blindavam das investidas humanístico-liberais do demasiado livre-pensamento europeu desapareceu, foi vomitada em favor da “televivência”, do relativismo, da normalização do “mal”, da privatização social, da embriaguez do entretenimento. A igreja católica-romana tem razão em se inquietar.

Os tempos em que vivemos não são propícios nem para os católicos, nem para os evangélicos, nem para ninguém que ouse pronunciar o nome de Cristo ou Deus. De imediato os fantasmas passados da intolerância e autoritarismo dogmático ressurgem. O individualismo é, indubitavelmente, um dos maiores obstáculos à pregação e catecismo dos indivíduos. O individualismo, fruto da privatização dos usos e costumes numa democracia doente e passiva torna o indivíduo amorfo, invejoso e sempre inquieto continuamente promovendo a ideia própria, individual. Falta de debate (o português não é dado ao debate, à troca de ideias) raramente o individualista se dispõe a ouvir, quando ouve, e muito menos a aceitar argumentos que pela sua lógica e coerência poderiam ser no mínimo alvo de pesquisa e reflexão (o português também não aprecia muito este trabalho). “Sempre se fez assim”, é o refrão. “Eu penso assim, tu pensas assado, cada qual na sua” lembra-me um corinho da escola dominical cujo refrão era “Eu no meu cantinho e tu no teu”. Longe estaria eu de pensar que esse coro revelava mais do que eu estimava. O individualismo e a tolerância mal direccionada têm feito muitos estragos na Igreja Evangélica em Portugal. Raramente nos incomodamos com a saúde espiritual do próximo (alegamos que não nos diz respeito), assim como não admitimos que não se preocupem com a nossa (apenas quando andamos “mal”, pois quando achamos que andamos bem somos os primeiros a autopromovê-la…). Raro e o responsável cristão que se arrisca a queimar as vestes para salvar alguém do fogo. A Igreja evangélica vive num torpor religioso onde o importante não é o pecado, mas que os outros saibam que se peca. O sentimentalismo conquistou o púlpito, o lugar mais importante numa igreja, o louvor passou a disciplina obrigatória ao invés da pregação e o entretenimento substituiu o tempo de oração e adoração. O individualismo fez com que mais nada me importe do que a minha pequenina pessoazinha mesquinha e egoísta. Proclama-se a moral de Deus sem o Deus da moral como se os grandes pecados mortais fossem o fumar e o beber (coisas que se vêem) e não o interior moralmente depravado do ser humano que gera toda a espécie de concupiscência e que nos tende a adorar a criatura ao invés do seu Criador.

Quando, pela sua Palavra pregada com poder, o Espírito Santo agir nas consciências dos indivíduos então não teremos mais nada a temer do individualismo, nem do pós-modernismo, nem do relativismo. Mas nessa altura o D. Manuel Clemente terá uma razão mais válida para se inquietar, pois Roma cairá.

Ecclesia semperreformanda est

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Relativismo - Conclusão

Finalmente - e o mais importante de tudo -, a conclusão. Qual é a causa e qual é a cura para o relativismo moral? A origem do relativismo moral não é um argumento e, portanto, a sua cura não será uma refutação de um argumento. Nem a Filosofia, nem a ciência, nem a lógica, nem o senso comum, nem experiência alguma vez refutaram o absolutismo moral tradicional. Não é a razão, mas a abdicação da razão que está na origem do relativismo moral. Relativismo não é racional, apenas é racionalização. Não é a conclusão de um argumento racional. É a racionalização de uma acção prévia. É o repudiar do princípio segundo o qual as paixões devem ser avaliadas pela razão e controladas pela vontade. Aquela virtude a que Platão e Aristóteles chamavam autocontrolo. Não é uma das chamadas virtudes cardeais, mas um ingrediente necessário em cada virtude. Esta suposição clássica é quase a definição de civilização. Mas os românticos, existencialistas, Freudianos e muitos outros convenceram muita gente na nossa cultura que o absolutismo moral é opressivo e insalubre. Se abraçarmos o princípio oposto e deixarmos que a paixão governe a razão, em vez de que a razão oriente a paixão, há pouca esperança de moralidade ou de civilização.

Obviamente, a coisa mais possante e atraente das paixões são as de carácter sexual. São, portanto, também as mais viciantes e densas. Assim, dificilmente poderia haver um enfraquecimento mais poderoso do nosso conhecimento e vida moral do que a revolução sexual. Já a procura de liberdade sexual tem substituído um dos instintos mais fortes da natureza: a maternidade. Milhões de mães contratam anualmente os serviços de assassinos profissionais legais, chamados médicos ou enfermeiros, a fim de matar os seus próprios bebés por nascer. Apenas é possível pelo impulso fundado em motivos sexuais que é dado ao aborto. Pois o aborto é o controlo dos nascimentos e o controlo da natalidade é a exigência para ter relações sexuais sem ter bebés. É o desfrutar do pecado sem acartar com as suas consequências. Temos saudades da cegonha que trazia os bebés de Paris e que foi substituída por um controle de natalidade apresentado em Powerpoint.

O divórcio é um segundo exemplo do poder da revolução sexual que mina os princípios morais fundamentais. Suponha que haja alguma prática, não relacionada com o sexo, a qual teria os seguintes resultados documentados: em primeiro lugar, traindo a pessoa que você alega mais amar, a pessoa a quem você tinha prometido sua vida, traindo sua promessa solene; em segundo lugar, o abuso moral dos filhos que criou e prometeu proteger, criando cicatrizes mais infinitamente profundas nas suas almas que qualquer outra coisa excepto o directo e violento abuso físico, tornando-se muito mais difícil para eles o alcançar vidas felizes ou casamentos; em terceiro lugar, prejudicar, minar e destruir provavelmente a sociedade futura. Esta prática não deveria ser universalmente condenada? No entanto, é exactamente isto o que o divórcio é e é universalmente aceite. É curioso que a traição é geralmente condenada a menos que essa mesma traição seja de índole sexual! A Justiça, a honestidade, o não prejudicar ninguém, são sempre princípios morais universalmente aceites, a menos que interfiram com o sexo.

O resto da moralidade tradicional ainda é amplamente admitida e ensinada mesmo em séries da TV, telenovelas e filmes de Hollywood. A força motriz do relativismo moral parece ser quase exclusivamente de ordem sexual. O “porque deve ser” e o que nós devemos fazer sobre isso são duas outras questões que exigem muito mais tempo e reflexão. Mas se você quiser uma curta suposição numa resposta a ambas, esta é a melhor conclusão. Penso que um secularista apenas deixou um substituto de Deus, apenas uma experiência num mundo dessacralizado que ainda lhe dá algo como a emoção mística, uma vibração auto-transcendente do êxtase para a qual Deus criou todas as almas. A menos que ele seja um surfista ou um drogado, essa experiência tem que ser o sexo. Nós fomos concebidos para algo mais que a felicidade; estamos destinados à alegria. Tomás de Aquino escreve com lógica simples, "o Homem não pode viver sem alegria. Alguém privado das verdadeiras alegrias espirituais tem de se compensar com os prazeres carnais".

Drogas e álcool são atraentes, porque eles declaram alimentar a mesma necessidade. Faltando-lhes, porém, a grandeza ontológica do sexo, eles fornecem a mesma emoção semi-mística: a transcendência da razão e consciência de si mesmo. A afirmação não é referida como condenação moral, mas como análise psicológica. Na verdade, e embora possam parecer chocantes, o viciado está mais próximo da profundeza da Verdade que o mero moralista. Ele está olhando para o melhor da coisa em alguns dos piores lugares. A exigência de um psíquico no qual ele transcenda a moralidade é muito errado, mas simultaneamente muito correcto. Porque fomos projectados para algo além da moralidade, algo em que moralidade será transformada: a união mística com Cristo. O sexo é apenas a prefigura. Os absolutistas morais jamais esquecem que a moralidade, embora absoluta, não é definitiva. Não é o nossa Summum Bonum. O Sinai não é a terra prometida; é Jerusalém. E na nova Jerusalém, o que finalmente acontece como último capítulo da história da humanidade, é um casamento entre o Cordeiro e sua noiva. Privado desta Jerusalém, tem de se comprar na Babilónia. Se nós não adoramos a Deus, adoramos os ídolos, mesmo que esse ídolo se possa revestir da imagem de Deus, pois somos por adoradores da natureza.

Finalmente, qual é a cura? Ela tem de ser um remédio mais forte do que a filosofia. Assim, em três palavras, a resposta a esta última e também mais prática questão. O que podemos fazer em relação a isso? Qual é a cura? Essas três palavras são totalmente banais. Elas não são um argumento filosófico, mas exigências bíblicas de Deus: arrependimento, Palavra de Deus e oração. Confissão, santidade, adoração. Não há nenhuma outra resposta e não se pode pensar em mais nada para salvar esta civilização a não ser na Igreja e seus Santos a proclamarem a Palavra da Verdade. Descrição: http://www.microsofttranslator.com/static/img/tooltip_logo.gif?156769Descrição: http://www.microsofttranslator.com/static/img/tooltip_close.gif?156769

(Adaptado)
Original
Neither philosophy nor science nor logic nor common sense nor experience have ever refuted traditional moral absolutism.

domingo, 23 de outubro de 2011

Relativismo 11 - Pelo absolutismo moral: a linguagem moral

Em quinto lugar, temos o argumento da linguagem moral. Este argumento é bastante óbvio e é usado por C. S. Lewis no início do seu livro “Mere Christianity”. É baseado na observação do que as pessoas falam. Elas não se limitam a batalhar, elas falam sobre o certo e o errado. Isto é, elas agem como se acreditassem no objectivamente real e nos princípios morais universalmente vinculadores. Se apenas desejos subjectivos e paixões humanas estivessem envolvidos, tratar-se-ia meramente de uma competição de força entre pessoas, ou somente de paixões concorrentes dentro de uma pessoa. Se estou com mais com fome do que cansado, eu vou comer, se estou mais cansado do que faminto, vou dormir. Mas nós dizemos coisas como: "Isso não é justo”, ou, "que tem a ver com isso?" Se o relativismo fosse verdadeiro, o argumento moral seria tão estúpido quanto o seria discutir sobre sentimentos: "sinto-me óptimo" ou "não, sinto-me mal".

Na verdade, a linguagem moral que todos nós usamos diariamente - linguagem que elogia, culpa, aconselha ou comanda -, seria estritamente inútil e sem sentido se o relativismo fosse verdade. Nós não elogiamos ou culpamos agentes não-morais como, por exemplo, as máquinas. Quando a máquina automática dos sumos em lata rouba o nosso dinheiro sem entregar uma lata de sumo, não podemos argumentar com ela, chamá-la pecadora, ou dizer-lhe para se ir confessar. Nós pontapeamo-la. Assim, quando alguns dos nossos psicólogos nos dizem que somos apenas máquinas muito complexas eles estão apenas afirmando que a moralidade é apenas um pontapé muito complexo. Isso é tão absurdo que nem sequer merece um debate. Penso que isto apenas merece uns pontapés, o que é, nem mais nem menos, praticar o que pregam: pontapear, mas de forma honesta. O argumento é simples: a linguagem moral é significativa, não existe sem sentido. Todos nós sabemos disso. Sabemos como usá-la e praticamo-la. O relativismo não pode explicar este facto.

sábado, 22 de outubro de 2011

Relativismo 10 - Argumento AD Hominem

Em quarto lugar, temos o argumento ad hominem. Mesmo os relativistas reagem sempre com um protesto moral quando são tratado imoralmente. O homem que apela para o princípio relativista de "eu tenho que ser eu", que justifica quebrar sua promessa de fidelidade à sua própria esposa ao deixá-la por outra mulher, quebra a sua fidelidade ao seu próprio princípio relativista, quando sua nova esposa usa esse mesmo princípio para justificar o acto de o deixar por outro homem, quando o seu argumento se volta contra ele. Isto não é excepcional, mas típico. Parece que a origem do relativismo releva mais da ordem pessoal do que filosófica. Tem a ver mais com a hipocrisia que com a hipótese. 

A contradição entre teoria e prática é evidente, mesmo no acto relativista do ensino do relativismo. Porque é que os relativistas ensinam e escrevem? Para convencer o mundo que o relativismo é certo e o absolutismo errado? Certamente certo e realmente errado? Se assim for, então existe um realmente “certo” e um realmente “errado”. Qual o padrão de juízo? E assim não for, então não há nada de errado em ser um absolutista, e nada certo em ser um relativista. Então porque é que os relativistas escrevem e ensinam? Realmente, tendo em conta todos os seus esforços em pregarem o seu evangelho para livrar a humanidade das falsas e tolas repressões do absolutismo, poder-se-ia pensar que eles realmente acreditam neste seu evangelho dogmaticamente relativo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Relativismo 9 - Pelo absolutismo moral, a experiência moral.

Em terceiro lugar, existe o argumento da experiência moral. Este é o argumento mais forte e mais simples, creio eu, para o absolutismo moral. Na verdade, ele é tão forte que parece uma encargo forçado e não natural o facto de o tentar configurar em forma de argumento - é mais correcto considerá-lo como um dado primário, ou adquirido. A primeira e fundamental experiência moral é sempre absolutista. Só mais tarde na vida do indivíduo, ou da sociedade, a sua sofisticação sugere o relativismo moral. Cada um de nós lembra-se da primeira experiência da infância do sentir-se moralmente obrigado. De esbarrar contra uma inabalável muralha moral. Esta memória está consagrada nas palavras "deve", "não deve", "certo" e "errado".

Toda e qualquer pessoa tema experiência da obrigação moral.

O absolutismo moral é, claramente, baseado na experiência. Por exemplo, digamos que você prometeu ontem à noite ao seu amigo que iria ajudá-los às 8H00 desta manhã. Vamos supor que ele tem que fazer mudanças na casa antes do meio dia. Todavia, você foi para casa às 03H00 da noite. E quando o despertador toca às 7H00, você está cansadíssimo. Você pode experimentar duas coisas: o desejo de dormir, e a obrigação de se levantar. Os dois são genericamente diferentes. Pode não sentir alguma obrigação de dormir, e nenhum desejo de se levantar. É levado, de certa maneira, pelo seu próprio desejo de dormir, e igualmente levado de uma maneira muito diferente, por aquilo que você acha que deveria fazer. Seus sentimentos aparecem de dentro para fora, por assim dizer, enquanto que a sua consciência é advertida de fora para dentro. Dentro de você reside o desejo de dormir, e isso pode levá-lo à acção externa de desligar o alarme e rastejar de volta para a cama, o errado. Mas, se se levantar para cumprir a sua promessa que fez ao seu amigo é porque você optou por responder a uma coisa de um tipo diferente: a qualidade moral percebida do acto de cumprir sua promessa, ao contrário da qualidade moral percebida do acto de se recusar a cumpri-la. O que você percebe como certo, ou obrigatório – levantar-se da cama – vem de fora, de um acto externo a você, da natureza do próprio acto. Mas o desejo que o seduz nesse momento - voltar a dormir - vem de dentro de você, da sua pessoa, da sua própria natureza. A obrigação moral move o indivíduo como um causa final, um fim em si mesmo, a partir de cima e para frente, por assim dizer. Os seus desejos movem-no como uma fonte, como uma causa eficiente, a partir de baixo, ou para trás, por assim dizer.

A experiência moral fundamental consiste em dados primários, adquiridos. Pode ser negada, mas apenas como algumas filosofias estranhas podem negar a realidade imediatamente percebida pelos nossos sentidos. O relativismo moral é para a experiência moral o que o ensino da Ciência Cristã é para a experiência da dor, doença e morte. Dizem-nos que estas experiências são ilusões que devem ser superadas pela fé. Assim, o absolutismo moral é empírico, enquanto que o relativismo moral não é mais nem menos que um dogma de fé.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Relativismo 8 - A Tradição

Em segundo lugar a favor do absolutismo, o argumento da tradição. Este argumento deve apelar para os igualitaristas que se defendem contra o absolutismo, porque seria, de alguma forma, relacionado com o snobismo. É exactamente o oposto. O absolutismo é moralidade tradicional e a tradição é o igualitarismo estendido na história.

O absolutismo é a norma na História da humanidade

Para ser um relativista, você tem de ser snob, pelo menos sobre este assunto de importância central. Para aderir a uma pequena minoria quase totalmente concentrada numa única cultura: o Ocidente moderno, ou seja, branco, democrático, industrializado, urbanizado, com formação universitária, secularizado, apóstata, resumindo, a sociedade pós-cristã. Para ser relativista, você deve acreditar que quase todos os seres humanos na História tiveram de ordenar a sua vida por uma ilusão. Mesmo sociedades como a nossa, que são dominadas por especialistas de opinião popular relativista, ainda tendem para o absolutismo moral. Tal como os comunistas, os relativistas fingem ser o partido do povo, quando na verdade desprezam a filosofia dos povos. Na verdade, há uma geração atrás, uma minoria de elitistas relativistas que ganharam o poder dos meios de comunicação têm implacavelmente imposto o relativismo elitista na opinião popular, acusando a opinião popular, isto é, o elitismo da moralidade tradicional.

domingo, 16 de outubro de 2011

Relativismo 7 - Consequências e defesa do absolutismo

Primeiro, o argumento pragmático das consequências. Se o relativista argumenta contra o absolutismo pelas suas supostas consequências, a intolerância, pode-se argumentar contra o relativismo pelas suas consequências reais. Consequências são, pelo menos, um indicador relativo. Elas são pistas. Boa moralidade deve produzir boas consequências e má moralidade, más consequências. Bem, é bastante óbvio que a principal consequência do relativismo moral é a remoção de impedimentos morais. Assim como as consequências de "fazer a coisa certa" é fazer a coisa certa, assim as consequências de "se se sente bem, fá-lo" é fazer o que nos agrada. Não é preciso ter um doutoramento para chegar a esta conclusão. Na verdade, às vezes dá-me a impressão que será preciso um doutoramento para não a discernir.

Todos os actos e atitudes imorais, com a possível excepção de inveja, são agradáveis. Segundo o velho ditado “Ou faz mal ou é pecado”. Essa é a principal razão para praticá-las. Se o pecado não parecesse ser divertido, todos nós seríamos santos. O relativismo nunca produziu um santo. Essa é a refutação pragmática aos relativistas. O mesmo vale para as sociedades. O relativismo nunca produziu uma boa sociedade, apenas más. Compare a estabilidade, longevidade e felicidade das sociedades assentes nos princípios da moral relativista como as de Mussolini ou Mao Tse Tung, com as sociedades fundadas em princípios da moral absolutistas como Moisés ou mesmo Confúcio. Uma sociedade de relativismo moral dura, em geral, uma geração. Os mil anos do Reich de Hitler não duraram muito tempo.
Esta citação deveria ser conhecida por todos os tribunais, governos e povos:

Tudo o que tenho dito e feito nestes últimos anos é o relativismo, por intuição. O facto de que todas as ideologias são de igual valor, que todas as ideologias são meras ficções, o relativista moderno infere que todos têm o direito de criar para si mesmos a sua própria ideologia e tentar impô-la com toda a energia de que for capaz . Se o relativismo significa desprezo por categorias fixas e peos homens que se dizem portadores de uma verdade objectiva e imortal, então não há nada mais relativista do que o fascismo - Benito Mussolini

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Relativismo 6 - Situacionismo

Um sexto e último argumento do relativismo é que as situações são tão diversas e complexas que não parece nem razoável nem realista circunscrevê-las às normas morais universais. Matar pode mesmo ser bom se a guerra for necessária para a paz. O roubo pode ser bom se se roubar uma arma a um louco. Até mentir pode ser bom se mentir aos nazis sobre onde estão escondidos os judeus. O argumento é essencialmente este: a moralidade é determinada por situações e as situações são relativas. Portanto, a moralidade é relativa. Um argumento intimamente relacionado pode ser considerado em que a moralidade é relativa porque ela é determinada pela motivação. Todos nós culpamos alguém por tentar assassinar outra pessoa, mesmo que não tenha sucesso na sua acção, simplesmente porque sua motivação é errada. Mas não culpamos moralmente de assassinato alguém por matar outra pessoa acidentalmente. Por exemplo, como dar doces a uma criança quando não se tem maneira nenhuma de saber que ela é seriamente diabética. Portanto, o argumento é, essencialmente, que a moralidade é determinada pelo motivo, e o motivo é subjectivo, portanto a moralidade é subjectiva.

A moralidade é parcialmente, mas não totalmente, determinada por situações.

Assim a situacionista e o motivacionista concluem ambos contra absolutos morais. O situacionista porque encontra toda a moralidade relativa à situação, o motivacionista porque ele localiza toda a moralidade relativa ao motivo. Nós respondemos com uma distinção de senso comum. Moralidade é, de facto, condicionada ou parcialmente determinada, por situações e motivações, mas não é inteiramente determinada por situações ou motivações. A moralidade tradicional no senso comum envolve três determinantes morais, três factores que influenciam se uma lei específica é moralmente boa ou má. A natureza do próprio acto, a situação e o motivo. Ou, o que você faz, quando, onde e como você o faz e por que razão você o faz. É verdade que ao fazer a coisa certa na situação errada, ou pelo motivo errado, não é bom. Fazer amor com a sua esposa é uma boa acção, mas já não o é fazê-lo quando é medicamente perigoso. O acto é bom, mas não nesta situação. Dar dinheiro aos pobres é uma boa acção, mas fazê-lo apenas para se exibir já não é. O acto é bom, mas o motivo não é.

No entanto, deve primeiro haver uma acção antes de poder ser qualificada por motivos subjectivos ou situações relativas e que certamente é também moralmente relevante. A vida é como uma boa obra de arte. Uma boa obra de arte exige que todos os seus elementos essenciais sejam bons. Por exemplo, uma boa história deve ter um bom enredo, boas personagens e um bom tema. Por isso uma boa vida requer que você faça a coisa certa, o acto em si; que tenha uma boa razão ou motivo; que você o faça pela via certa. Além disso, situações, embora relativas, são objectivas, não subjectivas. E as motivações, embora subjectivas, evidenciam absolutos morais. Eles podem ser reconhecidos como intrinsecamente e universalmente bons ou maus. A vontade de ajudar é sempre boa, a vontade de prejudicar é sempre má. Assim, até o situacionismo é uma moralidade objectiva, e até mesmo o motivacionismo ou o subjectivismo são uma moral universal.

O facto de que princípios devem ser aplicados de forma distinta a diferentes situações pressupõe a validade desses mesmos princípios. Os absolutistas morais não necessitam de ser absolutistas relativamente à aplicação em situações. Eles podem ser flexíveis. Mas uma aplicação flexível da norma pressupõe não só uma norma, mas uma norma rígida. Se o padrão é tão flexível quanto a situação, então não se trata de padrão. Se o critério com que medir o comprimento uma serpente for tão torto como essa serpente, será impossível de a medir jacaré em condições. Os critérios têm de ser rígidos. E os absolutistas morais não devem ser juízes dos motivos, apenas dos actos. Quando Jesus disse: "Não julgai para não serdes julgados" certamente quis dizer "não pretendais julgar corações e motivações, coisa que só Deus pode saber". Ele certamente não quis dizer, "Não julgueis os actos. Não discrimineis moralmente agressão de defesa, matar de curar, roubar de caridade". Na verdade, é apenas o Absolutista moral, e não o relativista, que pode condenar o julgamento da motivação, uma vez que só ele pode condenar a intolerância. O relativista pode apenas condenar o Absolutismo moral.

(Adaptado)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Relativismo 5 - Tolerância

Um quinto argumento, igualmente comum hoje em dia, é que o relativismo moral é tolerante, enquanto que o absolutismo é intolerante. Actualmente, a tolerância é um dos poucos valores sem controvérsias. Quase toda a nossa sociedade o aceita. Portanto, é um poderoso ponto de venda para qualquer teoria ou prática que o possa reivindicar. Em que consiste esta reivindicação do relativismo quanto à tolerância? Existem nada menos do que sete falácias neste argumento popular.

Em primeiro lugar, que fique claro o que queremos dizer com tolerância. A tolerância é uma qualidade de pessoas, não de ideias. Ideias podem ser confundidas, difusas, mal definidas ou erradas, mas isto não as torna tolerantes ou intolerantes, mais do que a sua clareza ou exactidão as poderiam tornar intolerantes. Se um carpinteiro tolera 0,5 cm de um desvio do plano, ele é duas vezes mais tolerante do que aquele que tolera somente 0,25 cm, mas ele é não menos claro. Um professor pode não tolerar nenhuma dissidência de seu ponto de vista difuso e mal definido — um marxista, digamos — enquanto outro, por exemplo Sócrates (o filósofo), pode tolerar muita dissidência de seu ponto de vista claramente definido.

Em segundo lugar, o relativista alega que o absolutismo, a crença em leis morais universais, objectivas e imutáveis, promove a intolerância do pontos de vista alternativo. Mas nas ciências, o caso não tem sido assim. As ciências certamente têm beneficiado e progredido consideravelmente como consequência da tolerância sobre pontos de vista diversos e heréticos. Além do mais, a Ciência não trata de verdades subjectivas, mas de verdades objectivas. Logo, o Objectivismo não causa, necessariamente, a intolerância.

Em terceiro lugar, o relativista ainda pode argumentar que os absolutos são duros e inflexíveis e, por conseguinte, o seu defensor também será duro e inflexível. Mas isso é outro non-sequitur (do latim “não se segue”). Qualquer um pode ensinar factos duros de uma maneira suave ou pareceres suaves de uma maneira dura.

Em quarto lugar, a mais simples refutação do argumento de tolerância é sua principal premissa. Ela assume que a tolerância é real, objectiva, universal e absolutamente boa. Se o relativista responde que não está pressupondo o valor absoluto e objectivo de tolerância, então tudo o que ele está fazendo é exigir a fundação da sua preferência pessoal subjectiva de tolerância. Isso é certamente mais intolerante do que o apelo para uma lei objectiva, universal, impessoal, moral. Se não há valores morais absolutos, então nem a tolerância o é. Se tudo é relativo, como o relativista afirma, então a própria afirmação que assevera que tudo é relativo é, em si mesma, relativa. O absolutista pode conceber muito mais a sério a tolerância do que o relativista. É o absolutismo, não o relativismo, que promove a tolerância.

Quinta falácia: é o relativismo que promove a intolerância. Por que não ser intolerantes? O relativista não possui resposta a esta pergunta. Porque sentimo-nos melhor sendo tolerantes? Ou porque é consenso popular? Suponha também que já não se sente melhor. Suponha que ele deixa de ser popular. A relativista não pode recorrer a nenhuma lei moral como uma barragem contra a inundação da intolerância. Precisamos desesperadamente de obstáculos porque as sociedades, como indivíduos, são inconstantes e falaciosos. O que irá impedir uma Alemanha de filosofia humanista de se transformar numa Alemanha de filosofia desumana, nazi e de superioridade racial? Ou, uma Europa agora tolerante de se voltar para uma futura Europa intolerante contra qualquer grupo que a decide desqualificar. São os não nascidos bebés de hoje que serão os bebés nascidos amanhã. Homófobos hoje, talvez homossexuais amanhã. Este mesmo absolutismo tão temido pelos homossexuais, porque não tolerante com seu comportamento, é sua única protecção segura contra a intolerância das suas pessoas.

Sexta falácia. O exame do significado essencial do conceito de tolerância revela um pressuposto de objectivismo moral, pois não tolera o bem. Só tolera o mal para evitar piores males. O paciente vai tolerar a náusea provocada pela quimioterapia para evitar a morte por cancro. E uma sociedade tolerará coisas más, como o tabaco (cada vez menos), para preservar as coisas boas, como privacidade e liberdade.

Sétimo, o defensor da tolerância enfrenta um dilema quando se trata de tolerância intercultural. A maioria das culturas ao longo da história não colocou uma alta importância no que respeita à tolerância. Na verdade, algumas até mesmo a consideraram uma fraqueza moral. Deveríamos nós tolerar essa intolerância? Em caso afirmativo, deve-se tolerar a intolerância, então o defensor da tolerância teria feito melhor calar-se sobre a Inquisição. Mas se não se deve tolerar a intolerância, qual a razão? Porque é que a tolerância é boa, e a Inquisição foi realmente má? Nesse caso, estamos pressupondo um valor universal e objectivo transcultural. E se, em vez disso, diz que é só por causa do nosso consenso pela tolerância? Mas o consenso na História joga contra ele. Por que impor nossa? Não é isto culturalmente intolerante?

Relativismo 4 - Liberdade

Um quarto argumento é que o relativismo moral, por si só, garante a liberdade, enquanto que o Absolutismo moral ameaça a liberdade. As pessoas muitas vezes perguntam como podem ser verdadeiramente livres se elas não são livres para criar seus próprios valores. Na verdade, a nossa Justiça tem declarado que temos o direito fundamental a definir o significado da nossa existência. Este é o mais fundamental de todos os direitos, se estiver correcto, ou a mais fundamental de todas as loucuras, se estiver errado. Este é a coisa mais sábia ou a mais estúpida que a Justiça alguma vez já tenha declarado.

A resposta mais eficaz a este argumento é, frequentemente, um argumento do tipo "ad hominem" (atacar uma reputada autoridade e não as suas qualificações). Dizer à pessoa que exige o direito de ser livre para criar seus próprios valores que você também exige esse mesmo direito e que o sistema de valores que você escolher é um em que as suas opiniões não têm absolutamente valor nenhum. Ou, um sistema em que você é Deus e que exige, legitimamente, obediência total de todos os outros. Rapidamente essa pessoa protestará em nome da Verdade e da Justiça, mostrando que realmente acredita, em última análise, pelo menos nesses dois valores objectivos. Se não fizer isso, se protestar apenas em nome do seu sistema de valores alternativos que criou, então o seu protesto contra o seu egoísmo e megalomania não é melhor que o seu protesto contra sua justiça e verdade. Consequentemente, esse argumento só pode implodir completamente e esta situação muito dificilmente garantirá a liberdade.

Uma segunda refutação do argumento do relativista da liberdade é que a liberdade não pode criar valores, porque a liberdade já pressupõe valores. De que maneira é que a liberdade pressupõe valores? Bem, primeiramente porque o argumento do relativista em que o relativismo garante liberdade deve assumir que a liberdade é realmente valiosa, assumindo assim, pelo menos, um valor objectivo. Em segundo lugar, se a liberdade é realmente boa, deve estar livre de algo muito mau, assumindo assim um objectivo bom e mau. Em terceiro lugar, o defensor da liberdade quase sempre vai insistir que a liberdade deve ser concedida a todos e não apenas a alguns, pressupondo, portanto, o valor real da igualdade, a regra de ouro.

Mas a mais simples refutação do argumento sobre liberdade é experiência. A experiência ensina-nos que somos livres para criar costumes alternativos, como regras socialmente aceitáveis para a fala, vestuário, refeições ou condução. Mas ela também nos ensina que não estamos, na verdade, livres para criar alternativas morais. Como a traição, ou violação, ou assassinato, como sendo princípios correctos. Ou fazer da caridade ou justiça coisas erradas. Não podemos criar um novo valor moral fundamental mais do que podemos criar uma nova cor primária, ou uma nova aritmética, ou um novo universo. Nunca aconteceu nem nunca acontecerá. E se pudéssemos criar novos valores, não mais seriam valores morais. Apenas seriam regras do jogo inventadas arbitrariamente. A nossa consciência não se sentiria vinculada por eles, ou culpada após a sua transgressão. Se fôssemos livres para criar "Matarás" ou "Não matarás" seríamos igualmente livres para criar "Jogarás futebol" ou " Não jogarás futebol" e, consequentemente, sentir-nos-íamos tão culpados por assassinar como por não jogar futebol.

Na verdade, todos nós nos sentimos ligados a alguns valores morais fundamentais, como a Justiça ou a regra de ouro, por exemplo. Experimentamos a nossa liberdade de escolha para optar em obedecer ou desobedecer-lhes, mas também experimentamos uma falta de liberdade para transformá-los em seus opostos. Não podemos espontaneamente odiar o bem ou amar o mal. Experimente, não conseguirá. Tudo que pode fazer é recusar a ordem moral no seu todo. Você não pode criar outra. Você pode optar por violar, mas você não pode ter a obrigação moral de cometer a violação.

(Adaptado)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Relativismo 3 – Condicionamento Social

Um terceiro argumento do relativismo é semelhante ao segundo, mas é mais psicológico do que antropológico. Supostamente, este argumento também é baseado num facto cientificamente verificável. O facto é que as condições da sociedade imprimem valores em nós. Se fôssemos educados numa sociedade Hindu, teríamos valores hindus. Assim, a origem dos valores parece ter origem nas próprias mentes humanas, pais e professores, ao invés de ser algo objectivo à mente do ser humano. E o que vem de seres humanos é, evidentemente, subjectivo, como as regras do futebol, mesmo que sejam públicas e universalmente aceites. Esse argumento, como o anterior, também confunde valores com opiniões de valor. Talvez as condições da sociedade valorizem as opiniões em nós, mas isso não significa que a sociedade valorize condições em nós, a menos que os valores não sejam nada a não ser opiniões de valor, que é precisamente o ponto em questão, a conclusão. Portanto, o argumento novamente suscita a questão.

A sociedade condiciona as opiniões, mas não os valores objectivos


Existe também uma falsa suposição nesse argumento. A suposição é que tudo o que podemos aprender com a sociedade é subjectivo. Isso não é verdade. Podemos aprender as regras do futebol ensinadas pela sociedade, mas também podemos aprender as regras de multiplicação. As regras do futebol são subjectivas e provocadas pelo homem; as regras de multiplicação não são. Naturalmente, os sistemas de linguagem em que manifestamos quaisquer regras são sempre provocadas pelo homem. Mas a mente humana cria, em vez de descobrir, as regras do futebol e a mente descobre, ao invés de criar, as regras de multiplicação. Assim o facto de que podemos aprender determinada lei ou o valor da nossa sociedade não prova per si que é subjectiva.

Finalmente, mesmo a premissa expressa deste argumento não é totalmente verdadeira. Nem todas as opiniões de valor são o resultado de condicionamento social. Se elas o fossem, então não poderia haver uma não-conformidade à sociedade baseada em valores morais. Só poderia haver rebeliões de força, ao invés de princípios. Mas, na verdade, há muitos não-conformistas de princípio. Essas pessoas não derivaram os seus valores inteiramente da sua sociedade, uma vez que discordam com sua sociedade sobre valores. Então, a existência de não-conformistas morais é prova empírica da presença da origem de valores trans-sociais.

(Adaptado)

Santificação III

3. Crítica SANTIFICAÇÃO PROGRESSIVA (obras salpicadas pela graça) Normalmente acontece que os crentes recentemente convertidos são levados a...