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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Espírito age como quer



Sempre me surpreendeu a maneira como Deus realiza e leva avante o seu trabalho na Terra. Fora dos parâmetros frequentemente idealizados pelo homem, por mais calvinista, arminiano ou qualquer outra coisa que seja, sem se limitar ao balizamento do preconceito religioso ou social, Deus age, trabalha e realiza. O Homem gosta de se sentir seguro e essa segurança só lhe é outorgada pela completa compreensão do que se passa à sua volta, do que vê acontecer e do que crê que esteja a acontecer. Na ânsia de tudo querer compreender estabelecem-se leis e limites. Tudo o que não esteja estremado por essas leis e limites será erro, mentira, porque indecifrável e não compatível com a crença de que as coisas para acontecerem de “maneira normal” devem acontecer daquela maneira que pré-estabelecemos, ou melhor dizendo, “à nossa maneira”. Tudo o resto é objecto de desconfiança, de decomposição crítica e, em última análise, de rejeição por vezes – talvez muito frequentemente – de uma forma violenta, seja por palavras ou actos. Há uns dias um familiar deu-me uma notícia bastante inesperada e, simultaneamente, emocionante. À conversa com uma senhora esse meu familiar repetiu o que ela lhe havia dito: “não me posso esquecer que foi no seguimento de uma pregação do seu filho que Deus me converteu!” Passados mais de 10 anos. E continua firme. Nessa pregação não houve apelos, choros, música temática ou quaisquer outros artifícios humanos para dar um empurrão às decisões. Sei que não houve porque fui eu a pregar. Além do mais só vim a saber passados estes anos todos. Nem sequer conheço a senhora em causa. 

Relato este caso, pois não sou o pastor convencional. Nada disso. Sempre me senti de certa maneira culpado e constrangido não pela minha rebeldia em relação àquilo a que se chama de convencional, mas pelo facto de nunca ter conseguido ser um pastor como os demais, como os meus amigos que admiro e cujo exemplo tento, de certa maneira, imitar. Mas Deus trabalhou, não por causa de mim, mas apesar de mim. Fiquei comovido pois o desalento e falta de coragem face às dificuldades exteriores e, principalmente, interiores são uma montanha quase sempre prestes a desabar sobre o que resta da minha coragem. Fiquei comovido pois vejo a obra de Deus a ser feita, em silêncio, discreta como uma brisa suave, sem violência, sem técnicas. Apenas a ser realizada.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

10 considerações sobre a Igreja actual

Ninguém pode, em toda a honestidade, negar a realidade de uma crise na Igreja da Europa. O fechar os olhos à crise eclesiástica não é uma prova de amor, pois o verdadeiro amor não aceita cega e passivamente os defeitos do ser amado. Qualquer observador atento concorda que existe uma verdadeira perturbação na Igreja europeia. Como se manifesta esta crise?

1. A descristianização da Europa. “Deus está morto”, escreveu Nietzsche e é este o refrão que ecoa na existência de uma sociedade anestesiada pelo conforto, abundância e luxúria. O Paraíso tem-se tornado um subúrbio da grande cidade Terra e a existência terrestre tem sido a única realidade presente. A maior tarefa que o europeu emprega neste século XXI é de tornar esta existência o mais prazenteira possível. Todo o pensamento humano se tem tornado existencialista, todos os seus esforços se têm concentrado no melhoramento das condições da vida presente.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cristianismo contemporâneo


Grande parte dos argumentos apresentados pelos proponentes de mudanças drásticas na liturgia, música e estilo na Igreja de Cristo provêm da teoria das zonas cinzentas. Segundo eles, as zonas cinzentas, áreas de incerteza prática e/ou teológica são um justificativo para operar medidas de transformação no que etiquetam de velho, rotineiro ou desmodado. Consciente ou inconscientemente – esta última devido a deficiências no ensino bíblico – os actores da igreja contemporânea elegem esta última como um palco por excelência para as suas actividades modernas em busca de granjear mais e mais indivíduos para os bancos da Igreja. O que não têm noção é que o cinzento é apenas a mistura do branco e do preto que povoa o texto bíblico desde o Génesis até ao Apocalipse e que Deus explana todo o seu ensino em termos dualísticos, ou seja, em branco e preto: bênção/maldição, amor/ódio, vida/morte, pecado/santidade, Deus/diabo, bem/mal.

Sob pretexto de “querer” salvar ou contribuir para a salvação de almas, o crente contemporâneo faz uso de toda a panóplia de técnicas e recursos existentes que bastantes provas têm dado no mundo das vendas e do marketing. O refrão é: “não devemos chocar os descrentes”, “devemos dar-lhes o que eles querem”, “devemos fazer com que a Igreja seja um local prazenteiro para eles”. Bastante pragmáticos, eles acarinham a máxima de que “os fins justificam os meios”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Reavivamento

despertamento

“São do mundo, mas não estão no mundo”. Esta é a nova versão produzida pelo evangelicalismo contemporâneo (e não só!) através do torneamento da fórmula bem conhecida “Estão no mundo, mas não são do mundo”. O moderno evangélico é do mundo, mas não está no mundo. Mais mundano que nunca, ele está, porém, cada vez menos empenhado em estar física e moralmente no mundo através do compromisso ordenado por Cristo ao qual chamamos a Grande Comissão “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura”.

É cada vez mais recorrente a ânsia a que se assiste ao orar e clamar por um reavivamento espiritual nas igrejas. É salutar que os crentes assim o desejem. Queremos ver as igrejas locais cheias de almas sedentas do Evangelho, queremos ver conversões e baptismos, queremos ver a obra de Deus a ser realizada e, muito legitimamente, queremos fazer parte dela, ou, na maioria das vezes, queremos provocá-la ou, simplesmente, fazê-la por nós próprios. Isto porque a pressão à qual o crente está sujeito pela inactividade e mornidão das comunidades evangélicas cria, invariavelmente, um desespero legítimo pelo cumprimento do mandamento de Deus no que respeita à evangelização.

Seja como for, legítima ou ilegitimamente as igrejas locais anseiam por um reavivamento religioso. Curioso é de observar o seu modus operandi na maior parte das suas acções. Congressos, conferências, grandes ajuntamentos, manifestações, jejuns, cursos de “plantação de igrejas”, novas tecnologias, tudo serve para dar graças a Deus sem que, porém, nada a médio-longo prazo tenha a devida consistência. Mais raramente existem reuniões de oração, pregação fiel da Palavra e testemunho pessoal e directo. É interessante ver que as igrejas, recorrentemente, actuam de um modo inversamente proporcional à maneira como Cristo actuava: Cristo pregava e orava muito; nas igrejas cada vez se prega e ora menos. O mesmo se passava com os apóstolos e todos aqueles grandes homens que estiveram envolvidos em reavivamentos e em cujo testemunho, escrito ou oral, era evidente a pregação expositiva fiel e a oração fervente. Não apenas deles em particular, mas das suas congregações em geral. Além do mais, eles não edificavam a Igreja, apenas plantavam. Mas sabiam plantar bem.

As reuniões de oração, tal como as de pregação (se assim lhes posso chamar, pois qualquer reunião tem de ter pregação. Vejo reuniões de jovens com várias actividades atraentes, concertos da chamada música cristã, passeios, lanches, teatros, encontros informais, mas raramente a velha reunião de oração e pregação) tendem a desaparecer por causa da sua irrelevância a um público encharcado dos media onde o controlo remoto o faz sentir dono e senhor da realidade a observar e onde a velocidade é rainha nesta era de ebulição técnico-social. Não há mais paciência para ouvir, apenas para observar como se faz com a TV, observar passiva e languidamente. E se não se aprecia um programa muda-se imediatamente para outro. Instantaneamente. Sem complexos. Rapidamente. Tal é a geração Zapping (Termo que consiste em mudar de canal de televisão constantemente, fazendo uso do telecomando). Com o controlo do mundo (seu mundo) na ponta dos dedos, o zappista apenas escolhe a realidade para ele mais interessante num determinado ponto do tempo. Tal é o crente na igreja. Não gosta, muda de canal. É monótono, muda de canal. É chato, muda de canal. Há programas mais divertidos, muda de canal. O pastor é rigoroso, muda de pastor. A igreja é fastidiosa, muda de igreja.

E ansiamos por um reavivamento!

Quando o teu povo de Israel for ferido diante do inimigo, por ter pecado contra ti, e se converterem a ti, e confessarem o teu nome, e orarem, e suplicarem a ti nesta casa, ouve tu, então, nos céus, e perdoa o pecado do teu povo de Israel, e torna a levá-lo à terra que tens dado a seus pais” (1 Reis 8.33 – 34). Se falta a pregação de exortação, de repreensão, de consolação e a oração de súplica, de louvor, de arrependimento, então como pode haver reavivamento? Se o povo de Deus não reconhece o seu pecado, não as suas imperfeições, ou pecadilhos, ou fraquezas, mas o pecado passado e presente com todo o seu peso de juízo, então como quer este povo que Deus aja? Sim, o pecado passado não denunciado, o colectivo, não apenas o individual, mas, por solidariedade, o pecado de todos nós, da igreja local, até do povo e do país. Sim, se gozamos da promessa feita a nossos pais é coerente dizer que também temos sobre os nossos ombros o que decorre dos seus pecados, não no particular (a alma que pecar, essa morrerá, Ezequiel), mas no geral (Eu, o SENHOR, teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem, Êxodo). Como ser solidário numa época de perfeito anonimato e privacidade? Como ter arrependimento numa época em que o importante não é não pecar, mas que não se saiba que se peca e na qual se estima que o que faço não concerne os demais?

Reavivamento? Apenas quando houver pregação fiel, incisiva e poderosa acompanhada por oração de arrependimento e súplicas. De outro modo vamos ter igrejas que dormem. Algumas andam sonâmbulas, isto é, andam, falam, ouvem, mas dormindo. Parecem acordadas, mas, de facto, dormem. E sabemos o perigo de acordar sonâmbulos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Actualidade do Cristianismo

http://jonasmadureira.blogspot.com/

Tomo a liberdade de referir a hiperligação supra referente a um blog cujo conteúdo costuma ser bem interessante, actual e pertinente.

Nesta última intervenção o autor toca num ponto deveras importante: estamos no século XXI!

"Ouvindo algumas pregações aqui e acolá, em canais de TV e em igrejas, percebo que muitos dos discursos e pregações de nossos dias estão muito distantes de ser comparados às pregações empolgantes de Jesus. Acredito que uma das razões seja a nossa incapacidade de ler nosso tempo, agravada pela pobreza de nossa leitura dos desígnios de Deus, expressos nas Escrituras. Quando digo “ler nosso tempo”, digo “ler as pessoas de nossos dias”. Jesus entendia o homem de seu tempo como ninguém. Ele compreendia as questões que o homem de seu tempo fazia e, por isso, respondia de forma relevante aos publicanos e pecadores de seu tempo.

Em contrapartida, nossa leitura do varão hodierno — ops! do homem de hoje! — é vergonhosa. Não entendemos seus pensamentos, não entendemos suas questões. Às vezes, tenho a impressão de que a maioria de nós está falando para homens do século XIX, e não só com uma linguagem oitocentista, mas — o que é pior ainda — usando uma lógica e um tipo de reflexão e postura intelectual que é típico do universo espiritual oitocentista."

domingo, 13 de junho de 2010

Pregadores ousados

Fui confrontado numa leitura diária em Marcos 6.14-29 com a falta de ousadia dos arautos contemporâneos. Definitivamente, estamos longe daqueles tempos em que o ideal e as convicções prevaleciam sobre a segurança ou estabilidade pessoais. Estamos longe dos actos de coragem de antecessores nossos que arriscaram tudo, até a própria vida, para proclamar "todo o conselho de Deus", sem rodeios, sem compromissos, sem a preocupação de agradar às massas, sem o medo de se colocarem em posições consideradas perigosas. E é precisamente a Arte do Compromisso, tão querida nas esferas políticas, que vai minando o meio evangélico já por si tão árido e desnorteado. Esse compromisso que consiste em pregar o que as pessoas querem ouvir; que consiste em fazer o que a maioria acha que se deve fazer; que consiste em agir segundo os padrões reguladores da moda, discurso e do "politicamente correcto". No trecho acima assinalado João não se coibia de repreender Herodes pela sua conduta pagã e pecaminosa. Bastante perigoso, tanto mais que naquele tempo o julgamento era imediato, quando o havia, e célere em sua execução. Tal como no tempo de Lutero ou Calvino. Ao contrário daquilo que se poderia imaginar, Herodes temia João, pois sabia que se tratava de um homem "justo e santo" (Prov 28:23 O que repreende ao homem achará depois mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua.).

A verdadeira pregação é aquela que fala a Verdade e a Verdade deve ser proclamada com coragem."Un courage indompté, dans les coeurs des mortels/Fait ou les grands héros, ou les grands criminels" (Uma coragem indomável no coração dos homens/Fá-los grandes heróis ou grandes criminosos). Não somente é necessário ter coragem, mas deixar que essa mesma coragem seja guiada pela Verdade. Daí podermos estimar que a verdadeira coragem, que culmina com o auto-sacrifício, será um risco corrido ou aceite sem alguma motivação egoísta. Coragem imoral não é coragem, mas loucura e ela só poderá ser moral quando a colocamos ao serviço de outrem ou na medida em que ela escape ao interesse egoísta imediato. Assim, o medo é egoísmo, a cobardia também o é. Ao contrário, a coragem não é a ausência de medo, mas sim a capacidade de o ultrapassar, quando ele existe, por uma vontade mais forte e generosa. Vontade ditada pela compreensão da Verdade e da Justiça, do dever e do Amor. A pregação corajosa será aquela desprovida de todo o sentimento centrado em si próprio, nas ambições pessoais e nos próprios interesses imediatos. Será uma pregação lúcida e completa; nua e crua.

Todavia, não é menos verdade que o pregador que se conhece a si mesmo, pois conhece a Deus, sabe perfeitamente o que é que ele pode suportar e o que não pode. Os heróis também o sabem quando estão lúcidos: é isso que os torna humildes, em relação a eles próprios e misericordiosos, em relação aos outros. Pregação corajosa não significa pregação louca, pois mesmo a ousadia só pode constituir uma virtude quando temperada pela prudência. Mas prudência, por si só, não pode ser considerada como compromisso. É o que faz a distinção entre o temerário e o louco e que permanece no cimo entre dois abismos: o cobarde é demasiado submisso aos seus medos; o temerário demasiado despreocupado da sua vida. O corajoso é aquele que o quer ser, cuja vontade é conduzida pelo amor à Verdade, conduzida pelo próprio Amor.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A propósito daqueles que morrem ser terem ouvido o Evangelho

Se todos aqueles que nunca ouviram falar do evangelho devem ter parte nele, Deus prestou-nos então um péssimo serviço fazendo com que ele nos seja anunciado, dado que, assim, estamos na posição de o aceitar ou recusar, logo de incorrer em bênção ou maldição; enquanto que aqueles que nunca ouviram falar dele não correm este risco. Teria sido mais sábio e caridoso da parte de Deus que o sacrifício do seu Filho tivesse tido lugar secretamente, que tivesse mantido na ignorância os humanos, não lhes apresentando o evangelho.

Santificação III

3. Crítica SANTIFICAÇÃO PROGRESSIVA (obras salpicadas pela graça) Normalmente acontece que os crentes recentemente convertidos são levados a...