domingo, 4 de abril de 2010

Tradução moderna de Hebreus 11 - O Justo pela dúvida viverá!

"E que mais direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir o que há a respeito de Voltaire e Russel; de Hume e Darwin, e também de Sartre e Kant; e de todos aqueles teólogos que, através da dúvida, criaram a devastação no reino dos fiéis e calaram a boca dos seus críticos. Pela dúvida apagaram os fogos da verdade, enfraqueceram os que eram fortes e destroçaram os exércitos dos simples crentes. Pela dúvida reviveram das heresias antigas e trouxeram novamente à vida as mentiras de um passado distante.

Eles foram publicados, festejados, tornados famosos e aplaudidos por grandes audiências, apareceram nos media afim de granjear grande renome (homens dos quais o mundo era digno).

Ora, todos estes obtiveram bom testemunho, sendo hábeis na arte da publicidade. E deram-nos a promessa, se nós também aprendermos a duvidar, poderemos como eles igualmente chegar à plenitude da maturidade contemporânea pela qual duvidaremos de tudo.

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos uma tão grande nuvem de duvidadores, desembaracemo-nos de todo o peso da fé que tenazmente nos assedia, e corramos atrás deles de modo a que nós, também, não creiamos em nada".

Jesus, o Marketing e a Ambiguidade

Jesus Cristo chumbaria na maior parte dos seminários teológicos ou escola de evangelismo modernos. Ele não era um génio do Marketing. ão sou eu que o afirmo, mas é uma consideração feita tendo em conta os seus métodos e os que são ensinados hoje em dia na maior parte dos estabelecimentos de ensino teológicos.

Marcos 10:17-22 "E, pondo-se a caminho, correu para Ele um homem, o qual se ajoelhou diante dEle, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus. Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; não defraudarás alguém; honra a teu pai e a tua mãe. Ele, porém, respondendo, lhe disse: Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade. E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me. Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades." (Almeida Corrigida Fiel)

A maior parte do nosso trabalho no esforço evangelístico é levar as pessoas a sentirem a falta de Cristo, ao ponto de que elas possam tomar uma "decisão" por Ele e, assim, serem salvas. Eis que neste relato tal esforço é poupado a Cristo. Um jovem correu para Jesus mesmo antes que este fizesse o que quer que fosse. Ultrapassado todo o processo pré-evangelístico, este jovem estava pronto a assinar o "cartão de decisão", a fazer a "oração do penitente", a levantar a mão, a ir à frente. Que rico troféu que Cristo perdeu! A este jovem não era preciso explicar a existência de Deus, pois via-se que era um homem piedoso e muito crente. Não era preciso incutir-lhe o interesse pela vida eterna, pois ele já o possuía. Não era preciso ensinar-lhe a Bíblia, pois ele já conhecia e praticava os mandamentos de Deus. Era rico e, muito provavelmente, seria um bom elemento em qualquer igreja contemporânea respeitável. Qualquer pastor de qualquer igreja estaria perfeitamente receptível à vinda deste jovem rico e respeitável para a membrasia da sua congregação. "Muitas coisas poderá fazer por Deus" seria o refrão de triunfo após esta conquista.

No entanto, Jesus, ao contrário de todas as técnicas de evangelização pessoal modernos, deixou a "presa" fugir. A pergunta que se coloca é: o que está errado? As técnicas de Jesus ou as nossas modernas? Resposta fácil: Jesus conhece melhor as técnicas de evangelização que qualquer um de nós. 

Reparemos no texto:
A motivação do jovem rico era a melhor: "que farei para herdar a vida eterna?". Ao contrário da nossa população contemporânea a quem se promete apenas uma vida melhor, mais dinheiro, mais saúde, melhor vida afectiva, mais emprego e menos problemas - tudo prémios terrestres -, o jovem ansiava pela vida eterna junto de Deus. Ele tinha compreendido que a vida espiritual era melhor que todas as suas riquezas. Nada de terreno o motivou a procurar Jesus. Segundo os textos paralelos, ele era jovem, rico e de posição influente. Provavelmente era um chefe de uma sinagoga. Jovem, rico, religioso, piedoso e no entanto algo o perturbava no seu íntimo. Ele mesmo havia identificado a carência do seu coração, o que não lhe dava repouso: a vida eterna. Sem dúvida que na igreja contemporânea este jovem já seria "convertido" antes mesmo de o ser. Bastar-lhe-ia passar por um pró-forma afim de ser integrado numa congregação e, assim, fazer grandes coisas para Deus. 

A sua atitude foi a correcta. Numa época em que os homens vivem sobretudo da "atitude correcta", ninguém pode censurar a atitude deste jovem ao ajoelhar-se diante de Jesus. Uma atitude louvável que, ao contrário de Nicodemos que veio de noite e em segredo ver Jesus, demonstra uma coragem inaudita. Diante de todos e em plena luz do dia, este jovem influente não hesita em ajoelhar-se diante de Cristo. Teve coragem suficiente para confessar a sua necessidade de vida eterna diante de todos, pois declara abertamente que não a possuía. Íntegro, desafiou uma postura "correcta" do seu nível social ao ponto de arriscar o seu descrédito diante de todos. Que oportunidade! Jovem, íntegro, honesto, ansioso pela vida eterna, que lhe faltava ainda? Actualmente, ninguém o deixaria escapar. Qual seria a sua atitude enquanto evangelista? Um jovem rico, íntegro, conhecedor das Escrituras sequioso de vida eterna que toma a iniciativa. É o sonho de qualquer evangelista!

Também veio à pessoa certa. O jovem não foi a qualquer reunião de evangelismo ouvir uma mensagem evangélica apoiada pelas mais modernas técnicas de marketing e vendas. Não ouviu algum coral, nem subiu à frente, nem levantou a mão. Ele foi simplesmente à própria fonte de vida. Ele estava procurando no lugar certo. Ele chama a Jesus não só Mestre, mas bom Mestre. Ele havia reconhecido em Jesus bondade essencial, não somente a capacidade de curar ou ensinar. Decerto que este homem já tinha ouvido falar dos milagres de Jesus, os seus milagres e o seu poder. De certeza que ainda não tinha a completa noção que estava na presença do próprio Filho de Deus, pois Jesus, que conhece os corações, pergunta-lhe porque ele O chama de bom; não há um bom a não ser Deus. Talvez este jovem tivesse sido cativado pela autoridade de Cristo e pela sua vida virtuosa e exemplar.

Este candidato a "recém-convertido do ano" teria feito as delícias de qualquer evangelista contemporâneo. O esforço de evangelização é tão grande que é antes difícil o recusar uma pequena oração e uma breve leitura de alguns versículos seleccionados quando, hipoteticamente, alguém do mundo mostra um tão grande interesse pelas coisas de Deus. Todavia, Jesus põe-lhe o dedo na ferida. Jesus age como actualmente ninguém quer agir. Fala do importante para essa pessoa, do que ela precisa de ouvir, mais do que ela quer ouvir. Jesus fala da cruz que o seu discipulado exige. Mais do que uma vida eterna no céu, Jesus advertia este jovem da cruz sobre a Terra: "Vende tudo o que tens, toma a tua cruz e segue-me". É um discurso que as pregações "anémicas" ouvidas nos dias de hoje não fazem referência. Anémicas porque excluem o real valor do sangue de Cristo que nos limpa e compra do pecado. As mensagens modernas são focadas no homem e nas suas necessidades. Começam no Homem e acabam no Homem. Tudo é dirigido em função das suas necessidades aqui e agora. O Homem pecou e perdeu uma grande bênção. Se ele quer recuperar o que perdeu, então terá de agir de certa maneira. Todavia, o Evangelho de Cristo é bem diferente: começa  e acaba com Deus e a sua glória! Numa sociedade de consumo como a nossa, a grande expectativa humana é o paraíso na Terra, não a cruz. Esta não é uma mensagem popular e aceitável nesta geração mimada. Ao pôr o dedo na ferida do jovem rico, Jesus mostrou o amor que sentia por ele. Porque amor é um sentimento forte e justo. Jesus disse o que ele precisava de ouvir para herdar a vida eterna; mostrou-lhe o conteúdo do Evangelho. Queres ser salvo, vende tudo e segue-me. A Igreja contemporânea mostra-se hesitante quanto à pergunta essencial: "O que é o Evangelho?" Se respondida com rigor, ela condenará muitas doutrinas evangelísticas e, como consequência, muitas sociedades missionárias, constituídas por várias igrejas locais que possuem respostas diferentes para a mesma questão. Adoptar a posição de uma significaria entrar em conflito com as outras. Definir o que o Evangelho realmente é, é criar conflitos com organizações que, por exemplo, trabalhem com jovens. Não necessariamente por causa deles, mas sobretudo por causa dos seus progenitores e a lamentável doutrina da auto-estima. Explicar que o importante é não pecar e não que não se saiba que se peca - o jovem rico aparentemente não pecava, mas tinha o seu coração preso às riquezas, era cobiçoso, violou o 10º mandamento - revela a maneira evangélica moderna de pensar: sucesso visível é o mais importante; as pequenas virtudes justificam os grandes vícios. Sem dúvida que dar demasiada atenção ao Evangelho em toda a sua essência significará fricção com outros meios evangélicos. E uma suposta unidade é a suposta chave para o "sucesso". Actualmente prega-se a "graça barata" (Bonhoffer), como um oficial de recrutamento que promete aos jovens ver o mundo, viajar, treino físico sem mencionar o acordar cedo, as marchas forçadas, o sangue, o suor e as lágrimas existentes no campo de batalha. 

Esclareçamos que o jovem rico não entrou nas hostes da Igreja purificada e comprada pelo sangue de Cristo única e exclusivamente porque de uma maneira voluntária ele recusou Cristo. Recusou Cristo porque recusou a soberana exclusividade de Cristo sobre a sua vida, ou seja, a chamada de Cristo ao discipulado envolve um compromisso exclusivo com a pessoa de Cristo. E ao recusar este compromisso, o jovem rico apenas mostrou que o seu único anseio era um cristianismo sem Cristo vivo que permanece, necessariamente, um cristianismo sem discipulado; e cristianismo sem discipulado é sempre cristianismo sem Cristo. Torna-se apenas uma ideia, um mito, um conjunto de regras morais. O ser discípulo significa dar determinados passos, sendo o primeiro logo após a chamada de Cristo aquele que separa o discípulo da sua existência anterior, pois ser discípulo e permanecer na antiga posição é uma contradição nos termos. A tragédia deste jovem rico é precisamente a tragédia da Igreja contemporânea. Não queremos casamento com Cristo, apenas solicitamos uma união de facto. Queremos vantagens, não queremos os inconvenientes. Queremos as vantagens de termos alguém sempre ao nosso lado, uma espécie de seguro contra todos os riscos - especialmente contra o risco do inferno -, mas estamos pouco ou nada dispostos a assumir uma vida dependente de alguém, mesmo que esse alguém seja o próprio Deus. Foi a desobediência que causou a perda do jovem rico, pois somente o crente é que é obediente e somente o crente é que obedece. A obediência, neste caso, era abandonar o ídolo do dinheiro que grassava o seu ser. O décimo mandamento existe para que ninguém se possa considerar justo diante de Deus. Apesar da sua excelente aparência, este pecado que não era de certo modo visível veio finalmente a revelar que espécie de homem este jovem era. Não fumava, não bebia, não ia a bares, não frequentava discotecas, não vivia no deboche e, no entanto, o seu grande pecado veio a revelar-se quando Cristo lhe ordenou o que se ordena a qualquer discípulo: obediência e total compromisso à causa. Daí a causa dos falhanços das modernas técnicas de evangelização pessoal. Dado que a moderna teologia comece e acabe no Homem e suas necessidades, é natural que todo o compromisso seja igualmente centrado nele, sendo Deus e Cristo considerados apenas um "acessório" apenas a serem utilizados em caso de emergência e a Igreja uma espécie de Segurança Social, ou apenas um clube de carácter social de traços religiosos vagos. O jovem rico representa a sociedade moderna em busca do religioso. Apesar de formular a pergunta correcta, a única que seria séria fazer acerca da salvação, ele não a fez de modo correcto. Ele apenas se esquivou ao cerne da questão. Dirige-se ao Mestre, quer saber a sua opinião, a sentença do grande doutrinador, sem sequer se aperceber que estava na presença do próprio Deus. Esperava do Mestre um pronunciamento importante - devido à relevância da pergunta -, mas nunca uma ordem divina que o viesse a comprometer. A cruz é imposta a cada crente. O primeiro sofrimento com Cristo, ao qual ninguém escapa, é a chamada que nos chama para fora das ligações do mundo. Compreende-se - sem se aceitar - a fraqueza e a decadência do evangelismo moderno.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

"Ai dos que chamam bem ao mal e mal ao bem!" - Isaías

"Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal! Que fazem da escuridade luz, e da luz, escuridade, e fazem do amargo doce, e do doce, amargo!" (Isaías 5.20). Nunca um profeta foi tão certeiro e contemporâneo nas suas afirmações. Talvez Jeremias se iguale a ele.

Talvez não consigamos discernir o modo de pensar no nosso século ou ainda nem liguemos às grandes correntes filosóficas que atravessam as eras supondo que o estudo dessa disciplina está guardada para os entendidos ou estudiosos do género. Talvez nem aceitemos que as gerações estão subjugadas a uma maneira de perceber o mundo que é constantemente sintetizada por essas mesmas correntes.

Uma delas, o Existencialismo, está bem patente na forma de concebermos o que nos rodeia, assim como na maneira de reconfigurarmos os valores morais e éticos através dos quais as nossas mentes são moldadas, as ideias são transformadas. Este Existencialismo, na sua base, afirma que a existência precede a essência. Mais se poderia especular sobre este movimento que tem as suas raízes em Kant, mas na sua substância ele realça o facto de que, muito sumariamente, a experimentação do mundo fenomenológico (das aparências ou o mundo como o experimentamos pelos sentidos) é feita através das lentes das nossas categorias de pensamento a priori, enquanto o conhecimento do mundo numenal (ou metafísico) é sempre suspeito. Resumindo, este autêntico separador de águas que é o pensamento Kantiano desembocou na célebre máxima: "O que é verdade para ti não o é para mim", sendo que a verdade toma a forma das nossas categorias de pensamento, ou seja, como a água que toma a forma do vasilhame onde é entornada. Assim, temos tantas verdades como cabeças pensantes.

A jovem da figura está bastante magra. É óbvio. Mas a categoria de pensamento dela (o espelho) mostra exactamente o contrário. E quem a vai convencer do contrário? Ela vê-se assim e se a minha verdade, ou maneira de ver, é tão válida como a dela, pois ela tem a sua categoria de própria de pensamento, que direito tenho eu de a convencer que ela está errada? E quem me assegura que sou eu que eu estou certo? Sem um padrão exterior a qualquer um de nós certamente que não vai ser possível e, consequentemente, podemos andar sinceramente no erro e estabelecer apenas uma regra: Não há regras! Chamar mal ao bem e bem ao mal perde todo o seu sentido dado que mal e bem perdem também o seu sentido.

Esta anarquia, a que muitos chamam de liberdade de pensamento, só faz sentido naquilo que Sarte afirmou: O Homem está condenado a ser livre!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Haverá ainda alguma dúvida? Será que estamos em fase de evolução, ou, ao contrário, de regressão? Deuses haverá sempre... por mais ateístas que sejamos...

Claro que a internet é e sempre será um bom instrumento na medida em que seja utilizado nas devidas proporções e seguindo objectivos lícitos. Não devemos, sob pretextos ultra-espirituais, diabolizar o que quer que seja que nos seja colocado à disposição para trabalhar, proclamar, agilizar as nossas acções em prol dos nossos objectivos. A questão é que quando o Homem inventa algo ele inventa logo o seu desastre. Ao inventar os aviões, ele inventa os desastres dos aviões; ao inventar os automóveis, ele inventa os desastres na estrada. E assim por diante. Ao inventar a internet, ele inventou, igualmente, todos os malefícios daí decorrentes. E aqui apenas falamos da internet.

Podemos não querer acreditar no Deus da Bìblia, mas criaremos sempre deuses para podermos adorar. Não há volta a dar. E falta deles, em última instância, adorar-nos-emos a nós próprios, quanto mais não seja o produto do nosso engenho que não é mais nem menos uma projecção de nós próprios. Se antes o Homem temia o olhar de Deus sobre a sua pessoa, agora teme o olhar do novo deus que ele se inventou para si mesmo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sete razões para acreditar no inferno

Podemos provar que o inferno existe? Existem, pelo menos, sete boas razões para acreditar que sim. As primeiras três são argumentos baseados na autoridade e as outras quatro são baseadas em raciocínio filosófico.
  1. A Bíblia assegura-nos que o inferno existe. Se a Bíblia é a Palavra de Deus, logo não acreditar no inferno é não acreditar em Deus. Dizer que uma mensagem é uma mentira é dizer que o seu mensageiro é mentiroso. A única escapatória a este argumento é interpretar a Bíblia - ou as suas partes que não querem ser acreditadas - não literalmente. O problema com esta objecção , além da óbvia desonestidade de especular sobre os dados de acordo com a própria vontade, é que mesmo se a imagem é não-literal, a realidade do inferno veiculada por essa mesma imagem é.

  2. Cristo foi o homem que mais falou sobre o inferno. Se o inferno não existe, então Cristo seria mentiroso, logo não poderia ser o Filho de Deus, pois Deus não pode mentir; logo não poderia ser apenas um bom homem ou professor - pois estaria a mentir deliberadamente e estaria voluntariamente a induzir os seus amigos em erro. Assim, se o inferno não existe, não somente Cristo é mentiroso, mas também é mau porque aterrorizou as pessoas desnecessária e falsamente. Todos nós sabemos os abusos que a doutrina do inferno pode provocar: medos e manipulação das consciências. De facto, o Homem mais amoroso, compassivo e gentil que existiu à face da Terra abriu a sua boca para nos advertir desta realidade assustadora. Inquestionável este argumento.

  3. A Igreja sempre ensinou dogmaticamente a doutrina do inferno. Se a Igreja se enganou sobre este assunto, porque é que não poderia ter enganado sobre o resto, como o paraíso? Quem se considera cristão tem que forçosamente acreditar no inferno, pois o contrário seria uma contradição: um cristão acredita em Cristo que acredita no inferno. A única maneira de acreditar em Cristo sem acreditar no inferno é reconstruir Cristo à nossa própria imagem (ora que Cristo quer reconstruir-nos à Sua própria imagem!). Daí o Cristo marxista, o Cristo capitalista, o Cristo ambientalista, o Cristo comunista, até o Cristo nazi. Porque não? A propaganda hitleriana criou este tipo de Cristo. Hitler escamoteou o judaísmo a Cristo para forjar a sua ideologia, assim como os modernos escamotearam a sua sobrenaturalidade para forjarem a sua. O facto de que o "modernismo" é mais simpático que o nazismo não justifica que se alterem os factos para construir ideologias. Se o modernista o pode fazer, porque não um nazi? A lógica do argumento é indiferente ao simpático ou ao menos simpático.

  4. A justiça reclama castigo para o mal. Ela significa discriminação moral entre o mal e o bem. A justiça é indestrutível, porque é um atributo divino. Todavia, a justiça divina não impede que Deus não perdoe, mas impede que Deus trate da mesma maneira o arrependido do impenitente. A compaixão é infinita, mas não pode contradizer nem destruir a justiça. Se isto não fosse verdade era como de déssemos o prémio Nobel da paz a indivíduos como Mao-Tse-Tung.

  5. O inferno é uma consequência da exclusividade de Deus. Se fôssemos pagãos, poderíamos trocar um deus por qualquer outro. Ou Zeus, ou Apolo, ou Vénus, ou Ala, ou o dinheiro, ou o corpo, ou a saúde, ou outro qualquer. Mas se Deus é a única fonte de alegria, vida e luz, então evitá-lO é evitar toda a alegria, vida e luz. negar o inferno é negar que Deus é o único Deus e que o seu céu é o único céu.

  6. O argumento mais simples é o da livre vontade humana. Se somos realmente livres para responder ao apelo de Deus, e se Deus não é um tirano ou ditador, então temos de ser livres para recusá-lo. E se as nossas almas entram na eternidade no estado de inimigos de Deus - no qual não há mais hipótese de escolha -, então temos de aceitar a condição por nós livremente escolhida. Mesmo que houvesse segundas hipóteses em segundas vidas, ou reencarnações, o que seria se continuássemos a recusar? Se somos livres, podemos recusar indefinidamente. Se, porventura, se tornasse necessário que aceitássemos Deus, então a aceitação tornar-se-ia não-livre. Por outras palavras, se dissermos que, após sucessivas reencarnações, toda a gente vai aceitar Deus, a liberdade de escolha vai transformar-se em escolha necessária ou determinismo. Mas isto é impossível. É como dizer que qualquer coisa vai perder a sua essência.

  7. O argumento do medo: um desejo universal, inato e natural corresponde sempre a um objecto real. Dado que o medo é correlativo com o desejo - tememos perder o que desejamos ter e desejamos perder o que tememos ter - e, tal como a premissa de que todos desejamos um paraíso (quem não o deseja?), logo substituímos desejo por medo e temos que todos temos medo de um inferno. Correlativo ao desejo de um paraíso é o medo de um inferno. a conclusão é que tanto paraíso e inferno devem ser reais. A única objecção é: será que temos mesmo medo de um inferno, ou de outra coisa? A evidência é tanto externa como interna. Externamente encontramos esse medo expresso de diferentes maneiras, locais, culturas e religiões. Não é exclusivo da autoridade cristã. Internamente só podemos apelar a uma honestidade individual: não é verdade que a razão do medo da morte é que existe algo em nós que não tem a certeza se há ou não um inferno e que podemos ou não lá ir parar?

A propósito daqueles que morrem ser terem ouvido o Evangelho

Se todos aqueles que nunca ouviram falar do evangelho devem ter parte nele, Deus prestou-nos então um péssimo serviço fazendo com que ele nos seja anunciado, dado que, assim, estamos na posição de o aceitar ou recusar, logo de incorrer em bênção ou maldição; enquanto que aqueles que nunca ouviram falar dele não correm este risco. Teria sido mais sábio e caridoso da parte de Deus que o sacrifício do seu Filho tivesse tido lugar secretamente, que tivesse mantido na ignorância os humanos, não lhes apresentando o evangelho.

Santificação III

3. Crítica SANTIFICAÇÃO PROGRESSIVA (obras salpicadas pela graça) Normalmente acontece que os crentes recentemente convertidos são levados a...